Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no
meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma
peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes,
recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido
permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de
vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer
forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido,
deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma
ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os
milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma
bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte
uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que
depois venha o tempo do sal, não do mel.

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